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Pastel com caldo de cana e criança no colo: o curioso caso do político que descobre o povo a cada 4 anos

Campanha política é engraçada…

Alguns candidatos simplesmente pararam no tempo e continuam repetindo, a cada quatro anos, a mesma política circense de sempre. Muda o número, muda o jingle, troca a camisa social pela polo ou social com manga dobrada, mas o teatrinho continua rigorosamente o mesmo.

A pergunta é: quem ainda acredita nisso?

Quem ainda olha para um candidato comendo pastel com caldo de cana na feira e pensa: “Rapaz, esse aí é gente como a gente”? Quem ainda se comove quando o sujeito pega no colo aquele bebezinho com a coriza escorrendo pelo nariz, dá um sorriso para a câmera e protagoniza o tradicional momento “homem/mulher do povo”?

Se for uma pessoa que naturalmente faz isso no dia a dia, tudo bem. O problema é quando a campanha eleitoral promove verdadeiros milagres de sociabilidade. Tem candidato que, em dias normais, não gosta nem de contato físico com outras pessoas, mas basta chegar o período eleitoral para virar praticamente patrimônio afetivo da humanidade. Abraça um, beija outro, pega criança no colo, aperta mão, entra em cozinha, senta em banquinho de plástico e só falta pedir para dormir na rede do eleitor.

E não podemos esquecer daquela espécie clássica da fauna eleitoral: o candidato que, se passar em dez casas durante o dia, come nas dez. E come de mão, porque aparentemente garfo e faca podem comprometer a construção da imagem de homem ou mulher “do povo”.

É uma dedicação impressionante.

Passou quatro anos almoçando em restaurante, mas durante a campanha descobre uma paixão arrebatadora por galinha caipira comida de mão na cozinha dos outros.

Nada contra o pastel. Nada contra o caldo de cana. Muito menos contra a galinha caipira. O problema é achar que o eleitor ainda não percebe quando existe uma câmera estrategicamente posicionada registrando cada mastigada.

Aliás, nem para produzir conteúdo para as redes sociais esse tipo de encenação funciona tão bem quanto alguns marqueteiros parecem imaginar. Talvez funcionasse vinte anos atrás. Hoje, para uma parcela mais politizada do eleitorado, o efeito pode ser justamente o contrário: o ranço aumenta.

Porque o eleitor aprendeu a reconhecer performance.

Ele sabe que aquele abraço pode durar exatamente o tempo de um story. Que aquela conversa na feira pode acabar quando a câmera desliga. Que o prato de comida pode ser mais sobre enquadramento do que sobre a fome propriamente dita. E que muita gente que vira “povo” durante 45 dias passa os quatro anos seguintes fazendo um esforço extraordinário para não precisar encontrá-lo novamente.

É aí que mora o problema.

A forçação de barra para parecer boa gente continua sendo a mesma coisa chata de sempre. É uma espécie de cosplay eleitoral de humildade: durante algumas semanas, todo mundo é simples, acessível, sorridente, abraçador, apaixonado por feira livre e frequentador assíduo da casa do eleitor.

Depois da eleição, dependendo do resultado, o personagem pode ser descontinuado sem aviso prévio.

E talvez alguns candidatos ainda não tenham entendido que isso pode estar afastando justamente quem eles mais precisam conquistar: o eleitor indeciso.

O eleitor fiel já escolheu seu lado. O adversário convicto dificilmente mudará de opinião. A verdadeira disputa está naquele sujeito que observa, compara, desconfia e ainda não decidiu em quem votar.

E esse eleitor não precisa necessariamente ver o candidato comendo de mão. Talvez queira saber se ele tem alguma coisa dentro da cabeça.

Proposta. Projeto. Capacidade. Histórico. Coerência. Alguma explicação minimamente séria sobre o que pretende fazer depois que passar a temporada de abraços, pastéis, bebês, cafezinhos e galinhas caipiras.

Porque ser “do povo” nunca deveria significar imitar caricaturas do que alguns políticos imaginam que o povo seja.

Ser do povo é entender os problemas dele e usar o espaço público, confiado através do voto popular, para resolvê-los e, principalmente, lembrar que ele existe quando não tem nenhuma câmera ligada.