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Opinião: Quando o luto vira oportunidade e a ambição atropela a sagacidade

A política baiana tem um relógio próprio. E, quando o assunto é espaço eleitoral, esse relógio costuma correr mais rápido do que o bom senso e, às vezes, mais rápido até do que o luto. No Recôncavo, essa distorção ficou evidente de forma desconfortável, quase didática.

A morte do deputado estadual Alan Sanches abriu um vazio político natural. Não apenas pela cadeira, mas pelo capital simbólico, eleitoral e territorial que ele construiu ao longo dos anos. Vazio que, em qualquer grupo minimamente organizado, exigiria silêncio estratégico, escuta e respeito. Mas a política, quando dominada pela ansiedade, costuma confundir ausência com disponibilidade.

Duda Sanches não está “inventando” uma candidatura. Ele está defendendo uma continuidade política que, goste-se ou não do sobrenome, foi construída ao longo de anos, com base eleitoral, presença e articulação. Não se trata de oportunismo tardio nem de improviso emocional. Trata-se de trajetória. E trajetória não se apaga por conveniência, nem se ocupa como se fosse um espaço abandonado.

Legado político não é herança de sangue, mas também não é terra sem dono. Existe legitimidade social, existe memória coletiva e existe leitura política do território. O eleitor do Recôncavo sabe diferenciar quem construiu presença de quem tenta ocupar um espaço aberto pela dor alheia. Essa percepção pode não aparecer nos discursos oficiais, mas aparece no voto.

O movimento de Ditinho Lemos para a disputa federal, anunciado logo após a morte de Alan, não gerou incômodo por acaso. O problema não é disputar. Disputar faz parte do jogo democrático. O problema é o tempo. O gesto. A pressa. A impressão de que o cálculo político correu na frente do respeito humano.

Seria muito mais proveitoso, do ponto de vista estratégico, que Ditinho mantivesse sua pré-candidatura a deputado estadual, consolidasse apoio, crescesse com a chancela de quem já tinha história, musculatura política e estrada no território. Havia ali uma oportunidade real de fortalecimento gradual, sem ruptura, sem desgaste e sem a criação de um conflito absolutamente desnecessário.

Mas a sede pelo poder costuma produzir esse tipo de curto-circuito. O sujeito acredita estar avançando, quando na verdade está atropelando. E, na política, atropelos quase sempre cobram pedágio.

Quando surge a narrativa de que a decisão foi “do grupo”, o cenário não se esclarece, ele se complica. Decisões verdadeiramente coletivas raramente precisam ser explicadas depois. A explicação pública costuma vir quando o constrangimento já está instalado e a costura precisa ser refeita às pressas.

O Recôncavo não é um território ingênuo. É uma região de memória longa, onde o eleitor observa mais do que reage. Oportunismo não precisa ser carimbado para ser reconhecido. Ele se revela no timing, na ansiedade e na forma como a ambição se antecipa à sensibilidade.

Enquanto o grupo se fragmenta, alguém avança sem fazer esforço. Com o rompimento interno, o tabuleiro se reorganiza e cria um efeito colateral previsível: Rogério Andrade, hoje deputado estadual e opositor do grupo, passa a nadar de braçadas nesse novo cenário. Com menos concorrência organizada e menos coesão entre adversários, ganha espaço, visibilidade e vantagem estratégica. Não porque atacou, mas porque assistiu. Na política, muitas vezes, vencer é apenas não se desgastar.

A Bahia que começa a se desenhar para 2026 oferece uma lição antiga, mas constantemente ignorada: quem tem voto, história e território pode esperar; quem tem pressa costuma errar. Duda, ao reafirmar sua pré-candidatura e sustentar o debate no campo do respeito, da continuidade e da legitimidade, ocupa um lugar compreensível para o eleitor. O lugar de quem diz: eu existo politicamente, tenho história e não aceitarei ser empurrado para fora do tabuleiro por conveniência.

Já o movimento de Ditinho, ainda que embalado por discursos de consenso e acordos internos, deixa uma leitura difícil de desfazer: não foi urgência pública, foi cálculo. E cálculo feito sobre o luto não gera apenas ruído. Gera desgaste. Gera rejeição silenciosa.

No Recôncavo, essa rejeição não vem com grito. Vem com urna.