Por Késsia Campos
A tal “Ala das famílias em conserva”, da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Luiz Inácio Lula da Silva como figura popular, não fez nada além do que o Carnaval sempre fez com maestria: caricaturou para denunciar e ironizou para expor.
Mas bastou a sátira atingir o modelo da família “de fachada” para que muitos evangélicos se inflamassem como se tivessem sido pessoalmente desmascarados. E talvez tenham sido. Porque a crítica não era à família em si, era à família performática. Aquela que posa de santa no feed e vive o avesso no off. Aquela que ergue a Bíblia em público e negocia princípios em privado.
Curioso é ver políticos que se dizem cristãos, defensores da moral e dos “bons costumes”, sentirem-se atacados por uma ala que escancarava justamente a hipocrisia. Alguns dos mesmos que relativizam tortura, flertam com discursos autoritários e aplaudem violência institucional, mas se ofendem com uma alegoria carnavalesca. A carapuça, quando serve, incomoda mais do que qualquer tamborim.
A alegoria da “família em conserva” é potente porque fala da embalagem. Conserva é aquilo que está fechado, lacrado, aparentemente intacto. Por fora, rótulo bonito. Por dentro, o que ninguém vê. A crítica é simples: há famílias que defendem valores com a boca, mas praticam abusos, violências, corrupção moral e financeira longe dos holofotes. Pastores envolvidos em escândalos sexuais, líderes religiosos presos por lavagem de dinheiro, homens “de Deus” condenados por abuso. A lista é pública e extensa. Os processos são reais e o silêncio religioso cúmplice também.
E aqui vale lembrar: a própria Bíblia é implacável com a hipocrisia religiosa.
Em Mateus 7:3-5, Jesus pergunta: “Por que reparas no argueiro no olho do teu irmão e não percebes a trave que está no teu próprio?” Antes de apontar o dedo, tira a madeira do próprio rosto. Em Mateus 23, Ele é ainda mais direto ao chamar os religiosos de seu tempo de “sepulcros caiados”: bonitos por fora, cheios de podridão por dentro. Em João 8:7, diante da mulher acusada, Ele lança a frase que ecoa até hoje: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra.”
Jesus não condenou pecadores comuns. Condenou a religiosidade performática. Condenou quem usava Deus como vitrine. Condenou quem fazia da fé instrumento de poder e julgamento.
Então há algo de profundamente contraditório quando cristãos que afirmam considerar o Carnaval pecado passam dias indignados com um desfile. Se é profano, por que acompanhar? Se é mundano, por que se importar com o enredo? A indignação seletiva revela mais do que a própria alegoria. Talvez o incômodo não seja com o samba, mas com o espelho.
O problema nunca foi a defesa da família. O problema é transformar “família” em slogan político enquanto se ignora violência doméstica, abandono, abuso e opressão dentro das próprias casas. O problema é usar o nome de Deus para blindar estruturas de poder e silenciar vítimas. O problema é defender moral pública enquanto se negocia ética privada.
Moral seletiva é isso: pecado é sempre o do outro. Escândalo é sempre o do vizinho. Vergonha é sempre a alheia. A própria é “queda”, “deslize”, “perseguição”.
O Carnaval apenas escancarou uma tensão que já existe. A ala não atacou a fé genuína, atacou a fé cenográfica. Ao contrário do que os pseudo cristãos estão pulverizando, não ridicularizou famílias reais, satirizou a encenação moral.
E talvez a maior ironia seja esta: se a crítica não se aplicasse, ninguém se sentiria atingido. Quem vive o que prega não precisa se defender de alegoria.
No fim das contas, a “família em conserva” não é uma ofensa à fé. É um alerta à incoerência. Porque cristianismo, segundo o próprio Cristo, não é performance. É coerência entre discurso e prática.
E coerência, ao que parece, é o que mais falta quando a moral vira palanque. Por isso eu sempre afirmo: a essa altura, nem Jesus suporta mais esse fã clube e, com certeza, Lutero está se revirando no túmulo, com vergonha desse movimento desastroso.





